Tuesday, August 03, 2010

Ela estava sentada no banco da janela do ônibus. O homem sentado ao seu lado era grande e ocupava muito espaço. Ela segurava sua mochila sobre os joelhos, com os braços pra frente, bem apertados, e o pescoço duro. Ele olhava para ela de vez em quando, e brincava com seus próprios dedões. Ele era um homem negro e careca, um pouco gordo, e usava uma camisa pólo verde desbotada. Ela era uma moça pequena, de cabelos castanhos e curtos, daquelas que jamais se destacam em uma multidão.
- Olha pra esse céu. - ele disse, olhando para ela com o canto dos olhos.
A menina apenas sorriu com os lábios, um sorriso um pouco forçado, um pouco impaciente.
- Ninguém pára mais pra olhar pra cima. As nuvens estão bonitas.
- É, o dia está bom. - a menina responde com uma voz bem seca, procurando encerrar o assunto.
O homem permanece em silêncio por mais alguns quarteirões. Depois encosta a cabeça no banco, olha para a menina de novo, e suspira.
- Tá cheio o onibus até, pra um sábado.
- Pois é... - a menina responde, já aparentando estar bem incomodada.
- Com licença. Não vou mais ficar aqui incomodando a senhorita. Reclamar da vida é muito fácil, mas ela é tudo que a gente tem, não é não?
O homem se levanta e a menina, já bem incomodada, nem olha para ele, que pára perto da porta do onibus. Ela encosta a cabeça no vidro e olha através dos reflexos para o sol, que está muito forte. O veículo pára e ela se levanta rapidamente, saindo pela porta.


Ana entra em um hospital bem grande, passa pela recepção e senta-se em uma cadeira em uma sala de espera bem grande e cheia. Pega algumas revistas que estão ao seu lado, as folheia, e olha para frente. De repente, percebe que do outro lado da sala, em uma cadeira nos fundos, está o homem que sentou ao seu lado no ônibus. Eles trocam olhares e ela rapidamente olha para baixo, disfarçando.
A revista está aberta em uma página de publicidade que mostra uma imagem de uma mulher de uns quarenta anos e fala sobre um creme anti-rugas qualquer. Ana olha pra foto por algum tempo.
- Alguém ajude aqui, enfermeira!!
Uma pessoa do outro lado da sala levanta-se e grita. Ana levanta os olhos e percebe que o homem do ônibus está caído no chão, incosciente. Duas enfermeiras chegam rapidamente para atendê-lo, e uma terceira traz uma maca, e ele é levado embora, por um corredor.

Ana fica parada por alguns segundos, olhando fixamente para frente, sentada na ponta de sua cadeira, enquanto o homem é levado embora. As pessoas a sua voltam a ler suas revistas, algumas balançando a cabeça com pena, outras aparentando uma certa indiferença. Ana encosta o corpo para trás e observa o homem sentado a seu lado por alguns segundos. Ele é um senhor careca, e está olhando fixamente para uma revista que segura com sua mão direita e que está de cabeça para baixo.
- O que você acha que aconteceu?
O homem olhou para ela por alguns segundos antes de responder.
- Passou mal ué, vai saber...
Ana fica sentada balançando as pernas e batendo os dedos no braço da cadeiras. Olha para seu lado esquerdo, no qual está sentada uma mulher que está usando um brinco para tirar sujeira debaixo de suas unhas.
Ana se levanta em um pulo e caminha até o balcão das enfermeiras.
- Com licença.
A enfermeira está no computador e não olha para Ana.
- Pegue uma senha que nós chamaremos seu número.
- Eu sei, eu sei, eu tenho uma senha.
- Aguarde por favor e chamaremos seu número.
- Tudo bem... mas eu queria perguntar sobre o homem que foi levado em uma maca agora pouco.
- Você é parente dele? - a enfermeira finalmente olha para Ana.
- Não, mas é que hoje...
- Desculpe-me, não podemos liberar informação dos pacientes para quem não é membro da família.
- Sim, eu entendo... só queria saber se ele está bem.
- Desculpe-me, não podemos liberar informação...
Ana dá as costas e sai de perto do balcão.

Ana olha para a porta por onde ele foi levado, e anda até ela bem devagar. Depois abre a porta e entra rapidamente.

Ana está na frente de outro balcão de enfermagem. Ela sorri.
- Boa tarde.
- Sim, posso ajudar? - a enfermeira responde com um sorriso.
- Um homem passou mal na sala do pronto socorro há um tempinho e levaram ele pra cá. Eu queria saber como ele está.
- Você é parente?
- Bom não... de sangue, mas nós fomos criados juntos, somos praticamente irmãos. Só queria saber se ele está bem.
- Tudo bem. Sente-se ali e daqui a pouco te chamo.

Ana senta em uma das cinco poltronas colocadas contra a parede daquele corredor, bem na frente do balcão de enfermagem.