Monday, August 06, 2007

A neve devia ter mais ou menos um metro e meio de altura naquela noite. Caía do céu fina e gelada, como uma chuva cortante. A cada passo os pés afundavam no gelo fofo e a sensação era parecida com a de estar andando sobre nuvens.
O frio já não incomodava mais. Porque na verdade, o frio só incomoda quando se quer que ele incomode. É puramente psicológico, digam o que quiserem.
Os caminhos que deviam ser tomados naquela noite entortavam-se por entre as ruas e calçadas molhadas. Os rumos perdiam-se no meio da noite escura, e cada destino novo chegava e ia embora dentro de um carro caro qualquer. Podia ser que fosse aquele cheio de crianças entupidas de casacos, ou aquele com um loiro mal-encarado sentado no banco do passageiro.
As placas que explicavam os nomes dos lugares estavam já completamente encobertas. Não gostaria de enxergá-las, mesmo se não estivessem. Porque o que importa não é o nome de onde você está, mas apenas ele em si e suas estradinhas de terra molhada. E seus paralelepípedos de concreto escorregadios. E seus rostos vermelhos e suados de frio, os olhos azuis piscando contra o vento de água congelada.
O cheiro do ar era salgado. Não sei agora, pensando bem e com mais calma, se era mesmo o cheiro do ar dali salgado por causa das árvores verdes e dançantes ou se era a comida do shopping centre ali perto mesmo. Prefiro pensar que eram as árvores sim. Pinheiros pra mim sempre foram plantas muito salgadas. É pela personalidade que eles têm, suponho.
A vontade era de correr, mas os pés afundavam e impediam o processo. Os pés e os agasalhos, e a bota forrada de pele sintética, e o gelo que cobria o asfalto e me faria escorregar, e o vento que cortava a boca como navalha, e os carros que corriam por qualquer direção. Mas a vontade era de poder voar sobre a camada de neve e correr, e ver a cidade passar debaixo de mim, os pinheiros salgados, os carros mal-humorados e as pessoas com frio e tudo mais que passasse. Que passasse o que quer que fosse, as vezes a vontade é assim mesmo.
Ver a vida passar debaixo da nossa barriga.