Monday, May 07, 2007

Ela e os ladrilhos

Ela sentava tão na beirada da cadeira que esta talvez fosse virar a qualquer instante, numa irritante aflição de vem e vai. Os pés mal encostando no chão, os dedos apoiados na mesa do lado da xícara de café acabado. Os ladrilhos ali pareciam simplesmente não entender nada, coloridos em sua ignorância. As grades e os fios elétricos que cercavam os prédios, e as pessoas passando inconseqüentes pelas ruas, suas consciências perdidas em algum outro lugar qualquer onde o céu da noite cinza não estivesse tão encoberto.

Ela sentava na beirada da cadeira e sorria, e ria, e sorria de novo, imbecil. Os olhos inquietos pensando em qualquer coisa que não fosse o que eu queria que ela pensasse. O canto do lábio dizendo num respirar lento o que era verdade e todos já sabíamos, apesar de nunca ter sido dito. O canto do lábio dela não poderia despertar qualquer sentimento em alguém que não fosse uma raiva terrível, daquelas que te corrói por dentro lentamente como se tivesse sido nutrida por anos em silêncio. Mesmo que você nunca tenha a visto, e a seus lábios, nenhuma vez antes.

Ela sentava tão na beirada da cadeira e as nuvens corriam tão depressa, mas tão depressa que não podia ser culpa do vento. Era com certeza algo maior e mais importante que estava fazendo o tempo passar depressa e em câmera lenta. Porque quando ela sorria parecia que tudo voava, e as pessoas na calçada flutuavam transparentes, perdidas em sua translucidez. Cada balançar pra frente e pra trás, os pés da cadeira entortando-se entre os vãos dos ladrilhos, ah cada balançar da cadeira era um ano que se passava entre um copo de água e um cigarro esquecido aceso no cinzeiro. Bem do lado da xícara de café acabado.

Ela sentava na beirada da cadeira e sorria, e tinha quantos anos mesmo? Tinha muito mais anos do que aparentava ter naquele sorriso patético, naquele sorriso que me fazia sentir patético. Mas sabia de muito mais anos que eu ou você, ela sabia das coisas como se tivesse vivido um milhão de anos.

Ela sentava tão na beirada da cadeira que era humanamente impossível não amá-la com desespero, não amá-la insanamente, era completamente impossível para mim não querer tê-la entre uma xícara de café acabado, bem ali no chão de ladrilhos estúpidos.