Tem algo sobre o fluxo dos meus pensamentos. Eu tento encaixar palavras em alguma lógica mas a sensação que eu tenho ao faze-lo é a de um beija-flor batendo contra o vidro de uma janela qualquer. Não é apenas um esforço em vão, é também doloroso e eventualmente mortal.
Eu me apaixono por qualquer um. Aqui, em Carbondale, eu percebi que eu sou capaz de amar qualquer pessoa, por qualquer razão. Eu enxergo o que há de bonito nos outros. Sinto-me uma criança deslumbrada com o mundo, e o deslumbre não permite que eu enxergue que na verdade o que me cerca é só uma estrada sem começo, sem fim, acostamento feito de capitalismo. O que começa e termina, aqui, capital do carvão, sistema nervoso do fim do mundo, adolescentes à flor-da-pele, apodrece sob as minhas cutículas como uma piada de mal gosto.
Todas as bocas têm cheiro de merda. Da minha garganta também sai um gosto específico, o fedor do silêncio, entre nós, quase como uma bola de catarro, que não se quebra, apenas faz nossas mucosas coçarem desagradavelmente. Eu tenho que rezar pra que Deus não exista, porque se ele existir eu estou fodida. Era pra isso ser uma piada? Você acha engraçado sofrer de amor? Você acha que esse tipo de coisa não existe, bem, querido, eu não ligo pro seu pragmatismo. Eu não lembro de muita coisa, honestamente faço um esforço sobrehumano para esquecer, mas há no meu incosciente uma espécie de fetiche em torno da imagem do seu rosto. Não importa o que me aconteça, eu fico retornando à ela. Tem uma fotografia sua pendurada na minha parede.
E sem perceber, mas agora eu vou percebendo, eu procuro seu rosto em outros homens. Procuro nos pequenos gestos algo que me lembre você. Eu desço, para o frio, de pijama, pra acender um marlboro light de madrugada, não consigo mais respirar fundo, bebo tanto café, sinto tanto medo, tenho tantas saudades, mas me esqueço. Preciso me esforçar pra esquecer. Entre os Grandes Lagos e o Grand Canyon e o Rio Amazonas e o Rio de Janeiro há um vão, um vale, sete azulejos que eu percorro, olhando para o chão, gritando pra mim mesma, o que é que eu estou fazendo com a minha vida.
Sinceramente, alguém por favor me explique, o que é que eu estou fazendo com a minha vida? Qual é a diferença entre nós e eles, quando o véu da castidade se quebra, eu poderia apenas ter aceitado os seus braços, dormido em outros ombros que me lembrassem o que é que me motiva. O que é que eu desejo da vida, que não são os seus beijos, que não são as suas costas, que não é a sua respiração na minha nuca, o que é que eu estou fazendo.
Eu preciso me lembrar. Pra poder esquecer.