Wednesday, July 27, 2011

Que Merda

Hein, eu não consigo mais.
Abro a porta da loja, não a da frente. Entro pela porta lateral, baixa de madeira clara, inclino a cabeça, passo pela estante em que os livros são amarelos, marrons, beges, fedidos, são seus, e você sentado na mesa, os óculos apoiados na ponta do nariz, o jornal amassado pendendo para um lado, respira, respira, que eu ouço a tua respiração daqui. Se eu não sei mais, penso, nem escrever, nem pensar, então não vou me dar ao trabalho. Qualquer trabalho, e você suspira, olha pra mim, não olha mais pra mim, diz meu nome com um sorriso no canto da boca, como sempre, acha meu nome sexy, isso eu penso, você pensa, ninguém diz, e talvez você nem pense, pensando bem. As coisas não são mais como quanto eu tinha dezoito anos, você tinha dezoito anos, e tudo ia nos impressionar, e tudo ia ser bonito e agora você é feio, você é mais feio que nunca, sentado na sua poeira, e me ignora, diz meu nome sem mexer a boca, não me olha, Marina, eu estou trabalhando, vai embora, eu não posso fechar a loja, eu não posso fechar os olhos, pega mais um livro amarelo, leia qualquer coisa, pare de falar, respire mais baixo, nessa tua loja tem barata. Mas você não pode mesmo, e eu choro, passar nem um pouco de tempo comigo, e eu choro mais, nem que sejam umas duas horas, e eu paro, eu estou tão sozinha, você não entende, você não me escuta mais, e eu estou tão sozinha sempre, eu só queria que você me ouvisse, ouvisse um sorvete, eu só queria que você passasse um aspirador nesses teus livros, no divã do teu analista, nas sentenças que flutuam do tédio ao tédio, nada em você se renova, eu te acuso, senta, eu te acuso, me olha, eu te acho ruim. O que adianta tudo isso, e apesar de não me ouvir ainda pergunta, temos meia hora de felicidade por semana, o resto é só merda, o resto é mar, eu nem rio mais, quando eu rio é aquele sorriso forçado que rasga o canto da boca, eu cortei as unhas até, eu fechei os olhos, você não foi embora, mas você mentiu pra mim o tempo todo. Eu não sou mais importante que a sua porta lateral, baixa de madeira clara, então você passa verniz em mim, me manda embora, com três livros, me despacha pra casa, eu nunca estive lá, me viro, você respira, respira, cada vez mais alto, fecho a porte, você grita, você cai no chão, o baque é surdo, isso aqui não é cinema, eu quero mesmo é que você morra.