Júlia tem um amigo invisível. Anda pra frente e pra trás na mesma sala, coloca os pés nas paredes, foge da janela, de repente não há janela, abre a cortina, dá uma pirueta, e se esquece. Júlia não sabe direito onde mora, mas mora também na sua casa e bem que pode-se dizer que mundo afora. Júlia às vezes vejo que chora. Júlia escreve o dia inteiro e Júlia não namora, aliás, não demora, logo que te olha vai embora. Júlia não gosta de rimas, não gosta de fantasmas, não gosta do escuro mas também não gosta de muita luz porque lhe doem os olhos azuis. Júlia existe mais na minha cabeça que na sua, mas existe em todas, e pouco importa as gavetas que abre em quais criados-mudos. Júlia grita pros surdos.
Júlia acha que me engana porque não diz nada, não olha pra ninguém, não sai de casa e não quer brincar de esconde-esconde comigo. Mas Júlia não escapa de sua essência de Júlia, suas sardas de Júlia, suas mãos de Júlia, seu estômago que ronca como roncam todos os estômagos e sua voz que falha como falham todas as vozes e seus cabelos que embaraçam como embaraçam todos os cabelos e sua boca que fede como de vez em quando fedem todas as bocas.
Júlia é muito mais humana que eu. Muito mais pensamento. Júlia não queria nada, ela tinha um amigo invisível e seu desejo secreto era ser tema de poesia e prosa: só queria atenção. Só queria que prestassem muita atenção nela, no que ela faz, no que diz, no que acha lindo e no que pensa quando lágrimas escorrem pelo seu rosto.
"Mas hoje eu não estou com cabeça pra ouvir teus problemas, Julinha."