Você era uma pedra no meu caminho
Era tão ruim que era quase bom
Era tanto a perda que era já um ganho
Você era uma pedra sem tamanho.
Apesar da despretensão pretendida
Ainda conseguiu deixar-me aqui
Estendida, presa
No seu apedrejamento em praça pública.
Pálida se penso na picada do teu veneno
Perdida no teu cheiro pútrido.
Perco minhas letras no seu anagrama
Preciso perseguir as suas consoantes.
Puxo doses realistas do teu sangue
Pra dentro de mim.
Você é um amor que eu não posso rimar com nenhuma
Sílaba tônica. Trônica
Sinto o peso do seu trono
Perco a razão.
Nunca tive razão. Nunca tive motivos.
Perdi perdi minha pedra
Quase perdi meu caminho.
Pedi muito mais do que queria ter.
E não servi nem de presa pros seus dentes
Presa nas suas desconexas cordas
Agarrada na sua conta-corrente
Penso no hiato
Prendo-me as curvas das letras que não te pertencem.
Meus sons nasais não te pertencem.
Eu não te pertenço!
Eu não te preciso!
Eu não te perco se não te tive!
Você não é nada pra ser perdido,
desprendido, apreciado
depreciado, apreendido, pronto
preto, apegado, mas aliás
completamente desapegado de qualquer coisa que o valha
Você era uma pedra no meu caminho!
Todas as pedras no meu caminho de repente tinham seu rosto.
Era péssimo, era horrível, mas eu gostava mesmo assim.
Da sua poética presa na esquina
Da sua pauta, da sua piscina
De todas as letras do teu podre nome.