Monday, September 01, 2008

The fact is I had fun

Eu sonhei com o riacho no final da rua Áurea. Mas eu sonhei com um monte de coisas que eu nunca tinha conhecido. Como aquela vez em que você cortou a sua perna descendo a ladeira bem rápido. Olhou pra baixo e assistiu o sangue escorrendo pelo joelho até os pés, quase sem sentir dor. A pior parte era a sensação de sopro dentro da ferida e quem sabe dentro da sua cabeça. Mas você tinha me dito que a melhor parte era a casa do japonês eu não lembro aonde, que ela tinha umas escadarias enormes que você descia quase rolando. Eu quase rolava pensando nisso também. Que atrás do Instituto Biológico tinha uma floresta e lá morava um mendigo que abaixou as calças, mas você tinha só cinco anos. Ou não era um mendigo, e nem você tinha cinco anos, e era seu namorado do Cristo Rei. Que ele era amigo do seu irmão e tinha ido bater na porta da sua casa disfarçado pra dizer que te amava. Na verdade, eu sonhei com a avó da Isabel, que morreu reclamando da reforma que fizeram na casa dela, na Joaquim Távora. Porque a melhor parte da casa era a escada que os pedreiros tinham conseguido construir sem nenhum suporte, e foi essa a primeira coisa que a nova dona do lugar fez questão de derrubar. E a casa do meu tio agora é uma pizzaria linda. Eu estava te olhando de longe enquanto você descia a Rio Branco puxando um carrinho de rolemã. O menino que morava lá perto tinha até ido perguntar pra sua mãe por que é que você era tão brava e não falava com ele... Mas tinha olhos azuis tão bonitos! Deveria estar falando com todo mundo. Daí foi que eu sonhei com o riacho atrás do Cristo Rei, onde os meninos faziam cabo de guerra, cada classe de um lado das águas. Eu sonhei e acordei dando risada, e ainda achava que estava morrendo de saudades do que eu nunca tinha vivido. Mas depois percebi que não era nada daquilo, era só vontade de viver mais e mais e quem sabe até ter a chance de contar pra alguém depois.