Como a mulher gravida passando pela minha frente na rua. E eu queria imaginar que ela ia ter era uma menina. Depois não imaginei nada.
As vezes penso que a dor no meu pé doí mesmo na minha cabeça. E não acredito que ela tenha sido injusta. Nem a dor, nem o Carlos Drummond de Andrade. As vezes eu simplesmente gosto de reclamar. Porque talvez eu não saiba mais de qual canto puxar os lenços da minha vida. Um colorido e um vermelho, saindo pela sua manga. Talvez um azul. Eu queria um azul.
Como a mulher gravida passando pela minha frente na rua, as pessoas que eu nunca vou conhecer simplesmente soam inevitavelmente mais interessantes no vai e vem de seus pés. Nas suas historias que ainda não me foram contadas. Nos seus segredos que não dividem com ninguém, na sua vida, no sexo que fazem de noite quando voltam pra casa, nos livros que lêem antes de dormir.
As outras pessoas do mundo são um leque de oportunidades. E as que estão a minha volta estão esgotadas. Eu já conheço suas palavras, reacoes, historias, sorrisos. Eu já amo elas. Eu já amo elas e preciso delas, e doí não ter as minhas pessoas quando eu quero que elas sentem do meu lado.
Mas as vezes eu preciso de pessoas novas. Frequentar ambientes novos, ruas diferentes, outras calcadas. Comprar outras camisetas.
Dormir mais durante o dia. Cortar o meu cabelo de outro jeito.
As vezes eu preciso mudar, preciso pensar na mulher gravida passando na minha frente. Eu achei que a barriga dela era azul. Talvez ela tenha gémeos.